25 de maio de 2017

A canção de Seikilos

Hoson zēs, phainou
Mēden holōs sy lypou;
Pros oligon esti to zēn
To telos ho chronos apaitei.

As long as you live, shine,
Let nothing grieve you beyond measure.
For your life is short,
and time will claim its toll.

23 de maio de 2017

mal entrámos em casa dirigiu-se ao frigorífico, que abriu e observou longamente, e, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, tinha aberto todos os armários para procurar chávenas de café. sem tempo de reagir, percebi, um pouco confusamente, que ela gostava de invadir mas não de se revelar. na minha casa arrumada por devassar, usava a sua força e despudor como uma capa que eu observava atentamente mas pela qual me desinteressava. desconhecia portanto, concluí, que tudo está a descoberto. talvez por isso, tinha facilidade em criar relações instantaneamente, a maioria das quais, supus, como aquela que havia acabado de nascer entre nós, não passavam de um envolvimento superficial ou mesmo — eis o meu terror — equívoco. a comparação com ele foi inevitável. também ele tinha invadido a minha casa antes, quando a visitou pela primeira vez, descalçando-se imediatamente, abrindo o frigorífico e os armários, demorando-se em todos os cantos onde havia livros e instalando-se confortavelmente no sofá como se este já lhe conhecesse o peso e as formas. ao contrário dela, ele usava e abusava de tudo o que pudesse forjar a mínima centelha de emoção, dirigindo-se a mim totalmente exposto, como se nisso gozasse de um certo prazer. disse-me, não muito tempo depois, que na exibição das suas fraquezas havia uma violência inescapável que as transformava no seu lado bom. essa violência atraía-me e dava azo a uma brandura, por exemplo no sexo, conferindo ao amor elasticidade. perante a exposição da sua fragilidade, a minha própria fragilidade cresceu: diante dele sentia-me como uma criança, indefesa e desprotegida, e era assim que me queria manter, como se houvesse alcançado um refúgio seguro onde me encontrava, com ele, do avesso. entre ela e ele havia portanto esta diferença, entre quem se revela e quem se esconde, quem se deixa sucumbir e quem se protege, quem mergulha e quem fica na margem a observar o rio que corre. na minha casa intacta, enquanto conversava com ela, vigiei do alto o ermo onde vivo, na penumbra e em silêncio, e não vi ninguém.
Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.

— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.


Herberto Helder, in A Última Ciência.

18 de maio de 2017

em dias de vento intenso como o de hoje, lembro-me sempre de um dia de tempestade há mais de trinta anos atrás. a minha irmã e eu levávamos a bata azul do colégio por cima da roupa, uma mochila e um chapéu de chuva cada uma. o céu estava negro quando saímos de casa, ameaçador, mas num instante estaríamos na escola. de mão dada, subimos a ladeira e os pingos começaram a cair, passando rapidamente a uma bátega que, apesar da proteção, encharcou as roupas e os sapatos. quando chegámos ao "Rossio", um amplo descampado de terra batida que tínhamos de atravessar, o vento surpreendeu-nos: vinha, em tufões, de todos os lados. como os nossos corações batiam em uníssono, eu soube que a minha irmã teve medo e a minha irmã soube que tive medo. a meio do baldio, o extraordinário acontece: uma lufada de vento levanta-me do chão. com o chapéu de chuva na mão, durante uns segundos, fui como um balão na mão da minha irmã. olhávamos uma para a outra incrédulas quando, diligente como sempre foi, a minha irmã me dá um puxão com força para voltar ao chão. nos nossos olhos havia agora a certeza de que ninguém acreditaria se contássemos. acho que nunca o fizemos.

11 de maio de 2017

e ali mesmo, diante do olhar de todos, ela levantou-se para ir à casa de banho com o tampão na mão. não o escondeu no bolso, não o levou numa carteira, não procurou fugir aos olhares: no final da reunião tirou-o da mala descontraidamente, continuando a falar. o gesto foi para mim de tal modo inaugurador, que não consegui disfarçar um ligeiro sorriso nem tirar os olhos dela enquanto atravessava a sala. a chave do feminismo estava ali. quem de entre nós mostra o penso ou o tampão na mão quando o vai mudar? quis fazê-lo imediatamente. contudo, havia tanto que ter em conta. mostrar o objeto é mostrar que se sangra, é mostrar o próprio sangue. fazê-lo em família, no trabalho, com os amigos, no café, no comboio, num jantar, em que situações estaria pronta a fazê-lo e, sobretudo, em que situações me proibiria de o fazer? testei-me. eu, que sempre tinha escondido esses utensílios dos olhares, passei a fazer do momento da troca um acontecimento carregado de intencionalidade e revestido de declaração política. ainda hoje é.

7 de maio de 2017

Os acontecimentos não se encontram nem no futuro nem no passado de P* (...), não podem causar nem ser causados por P.

Stephen Hawking, Breve História do Tempo.

*Presente condicional.

6 de maio de 2017

quero ir numa exploração à Mongólia, caminhar em silêncio contra mil ventos, apagando aos poucos a lembrança de onde vim e fixar o horizonte como uma eternidade sem destino. lá, serei como o cavalo, sábio e forte, encostarei a cara à terra, cuja modulação erótica e apocalíptica me atacará ferozmente, emocionando-me como uma ausência. a alucinação dos sons bate-me no corpo e o seu ritmo, árido e metafísico, leva-me ao fundo do tempo onde há carência de tudo menos da morte. caminharei com um amigo em silêncio, comerei com ele, e, juntos, inventaremos a alegria que ninguém toca por ser uma perigosa proliferação de universos. quando voltar, deixarei a mão direita no meu lugar, com a sua vocação para viver entre a germinação das formas. não procurarei ninguém e ninguém me procurará. sento-me à varanda da minha casa a apreciar a nespereira do jardim diante carregada de fruta que cairá antes de ser colhida, e tudo — sol, céu, nuvem, chuva, calor e frio —, será como uma anunciação.
Como o ruído era para ele, antes da surdez, a forma perceptível que a causa de um movimento revestia, os objetos movidos sem ruído parecem sê-lo sem causa; despojados de toda a qualidade sonora, mostram uma atividade espontânea, parecem viver; movem-se, imobilizam-se, pegam fogo sozinhos. Sozinhos levantam voo como os monstros alados da Pré-história.

Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, volume III – O lado de Guermantes.

1 de maio de 2017

uma temporalidade desesperada torna-se real e a sua beleza preenche a distância. olho-me ao espelho e um rosto enigmático mostra-me o animal dilacerado pela imaginação. somos admitidos na luz febril da manhã e a sua multidão de sombras tempestuosas abre uma estrada eterna. não toco em nada. nos confins do mundo, procuro a violência, a morte. transporto um pesado, inquietante silêncio. o êxtase vem e o meu corpo aprova mas a minha consciência está perturbada. insensata e maliciosa, uma palavra precipita-se e ganha forma, como um incêndio.

22 de abril de 2017

uma parcela de escuridão deveio uma forma maravilhosa, sagrada, absoluta. não foi fácil conservar a sua limpidez, a ponto de acreditar que um dia não se adaptaria à pele. separados por não sei quantas sílabas, mergulhados numa obscuridade que nenhuma luz deturpou, podemos encontrar beleza numa forma que se prolonga até ao infinito. uma frequência atual confere-lhe densidade, vem-me à ideia as cores frescas de uma flor cujo nome está escondido no longínquo jardim. o segredo é só esse: as mãos penetram o espaço sem noção do tempo, com profunda modéstia, e substituem todos os encantos, com requinte.